Em Poesia Elementar, perturba desde logo o facto de serem dois os seus
autores. Aliás, autoras. Aliás, irmãs (no sangue
e, principalmente, na poesia). Duas vozes reúnem-se numa só.
Todo o livro é um processo de harmoniosa reunião e arrumação
das coisas do mundo, rumo a uma buscada lógica depuradora e redentora.
Procura-se o além, a divina possibilidade de outro universo. A
poesia é este passaporte formoso e delicado para a possibilidade
de um outro ar, um outro tempo, um outro mundo. Não se sabe ao
certo onde é, como é; mas sabe-se que se chega lá
pela linguagem poética.
É no horizonte
Que os aromas
Da terra e do céu
Mansamente se diluem
E, esboçando enleios,
Se fluem no espaço
Que perdura
Para além do alheamento,
Fundindo-se, sem pudor
Nem saciedade,
Num gesto perene
De lenta fecundidade...
De um modo geral, creio que a obra representa uma certa poética
dos sentidos – é pelos sentidos que é possível
a cósmica apreensão do mundo.
Naturalmente, a assunção do corpo é uma questão
fundamental em Natas do Céu. Esta ostensiva preferência pela
dimensão sensorial do mundo e da vida não reduz o discurso
poético a um patamar pobre, chão ou simplista.
Nesta obra, é a experiência magnífica dos sentidos
que eleva a condição humana acima de si própria e
a resgata da vulgaridade do mundo.
Chegamos a casa.
Chegamos nós na companhia
De desejos nocturnos...
E aquecemos a cama,
Derretidos em chocolate quente!
Estendo languidamente
O corpo rendilhado de Suzette.
Desenho-lhe asas flambeadas
Nos sentidos.
Acrescento a calda,
De efeitos transparentes,
E enfeito de estrelas cadentes,
A lembrar desejos proibidos.